Queer at The Movies: Um Panorama da Trajetória Queer no Cinema

Parte IV: Um Espaço no Mainstream e o Imagético Queer na Contracultura

Jon Voight e Dustin Hoffman em Midnight Cowboy

Quando Alfred Hitchcock dirigiu Psicose (Psycho) em 1960, a indústria cinematográfica vivia o declínio da Era Hays, o que significou uma certa abertura à escolha de temas por parte dos diretores , roteiristas e produtores em Hollywood. Marcado pela estilização de cenas de violência requintada, como nunca se tinha visto (o assassinato de Janet Leigh no banheiro), e inovações narrativas que se propunham a romper com o estilo clássico dos filmes de suspense, Psicose se construía sobre um personagem emblemático –o assassino Norman Bates- cuja personalidade psicótica revelava uma gama de tabus como voyerismo, travestismo e necrofilia.

Anthony Perkins: o Norman Bates de Psicose

A seriedade com que o tema é tratado dentro da trama –de uma obscuridade e tensão crescentes à medida em que as nuances das patologias presentes em Bates se apresentam- destaca-se como um estudo mais aprofundado –no sentido de análise psicológica- do que qualquer produção anterior que tratasse de temas concernentes a desvios de personalidade, travestimo ou o desenvolvimento de sexualidades complexas. Ainda estamos diante do bizarro, como em Glen or Glenda, porém, enquanto o filme de Ed Wood se coloca meramente como expositor do horror show para a curiosidade não-esclarecida das massas, o enfoque de Hitchcock se calca muito mais na exposição de particularidades humanas obscuras, de maneira a levantar questões em torno delas, e ainda que não traga respostas, as torne passíveis de uma reflexão analítica.

Laurence Olivier e Tony Curtis na famosa cena do banho em Spartacus

No mesmo ano, Stanley Kubrick trazia em Spartacus, a sexualidade dúbia revelada no relacionamento entre os personagens de Laurence Olivier e Tony Curtis. Desta vez o olho da censura não se fechou para o homoerotismo latente do filme e exigiu o corte de uma cena em que o general Marcus Crassus (Olivier) e seu servo Antoninus (Curtis) tomavam banho juntos. O clássico diálogo a respeito da bissexualidade está na versão restaurada de 1991, em que os dois personagens conversam sobre a preferência gastronômica entre ostras e caracóis, e o general Crassus se posiciona a favor da experimentação: “É tudo uma questão de gosto. E eu gosto dos dois.

Shirley Maclaine e Audrey Hepburn: Infâmia

No ano seguinte, William Wyler levou ao cinema uma adaptação da peça de Lilian Hellman, The Cildren’s Hour, traduzido no Brasil como Infâmia. O filme trazia Audrey Hepburn e Shirley MacLaine como duas professoras acusadas de manter um relacionamento amoroso. Os rumores sobre a suposta relação das professoras rapidamente espalha-se pela cidade e depois, ganha as páginas dos jornais de todo o país, destruindo suas carreiras e finalmente, levando suas vidas a conseqüências trágicas. A questão da homossexualidade começava a ser encarada não mais apenas sob a ótica da psicanálise, abrindo uma brecha para discutir o homossexual inserido nas pautas dos Direitos Humanos e os efeitos da intolerância na sociedade.

Foi ainda em 1961 que o diretor Basil Dearden fez o primeiro filme inglês a discutir com seriedade a questão da homossexualidade. Meu Passado Me Condena (Victim) é a obra mais corajosa realizada na Inglaterra durante os anos 60. Até 1967, a lei inglesa considerava crime as práticas homossexuais, o que dificultou durante anos a produção do filme e a aprovação do roteiro por parte dos estúdios britânicos. Dearden, após várias recusas de atores para protagonizar o filme, finalmente encontra seu protagonista, gerando outra controvérsia: era Dirk Bogarde, o ator mais popular da Inglaterra, que aceitara o papel sem hesitar. Melville Farr, o personagem de Bogarde, prestes a ingressar numa carreira promissora de juiz e membro do Conselho da Rainha, inicia uma perigosa investigação com o intuito de desmantelar uma rede de chantagem envolvendo homossexuais –rede que levara um ex-namorado à prisão e ao suicídio. Motivado pelo suicídio do rapaz, Farr arrisca sua carreira e seu casamento, recebe constantes ameaças, mas mesmo sabendo que a destruição de sua vida pública e pessoal é inevitável, decide levar o caso aos tribunais. Em Meu Passado Me Condena, a palavra “homossexual” é usada pela primeira vez em um filme inglês, e o termo “queer” surge numa cena em que os chantagistas pintam FARR IS QUEER na porta de sua garagem, antecipando a conotação que décadas depois se tornaria universalmente popular para designar homossexuais.

Ingrid Thulin e Gunnel Lindblom: O Silêncio de Bergman

Se no começo dos anos 60 o tema da sexualidade começava a encontrar espaço nas discussões centrais dos filmes comerciais, ainda que muitas vezes de forma estereotipada, em vez de ser apenas sugerido em abordagens periféricas, no chamado cinema de arte diretores importantes como o sueco Ingmar Bergman já há mais tempo colocavam o foco sobre essas questões. Durante toda a sua filmografia, Bergman mostrou interesse pelas complexidades psicológicas de seus personagens, muito mais do que pela construção de um enredo que privilegiasse ações exteriores; as ações mais relevantes no cinema de Bergman acontecem dentro do espaço subjetivo dos indivíduos, e a partir delas é que as ações exteriores se desenrolam. Em O Silêncio (Tystnaden), de 1963, Bergman encerra sua Trilogia do Silêncio lançando uma luz sobre questões obscuras envolvendo a sexualidade, e muitas sombras sobre outras. O interesse de diretores como Bergman nunca é responder a essas questões, mas incitar o público a trazê-las a um plano de relevância e discussão. Em O Silêncio, os sentimentos e inquietações da personagem Ester (Ingrid Thulin) se desenvolvem diante da tela de forma represada, mas latente, provenientes de uma identidade sexual ambígua e considerada patológica. Estas inquietações estão prestes a serem extravasados em cada quadro, rumo ao conflito final onde se apresenta em toda a sua força a densidade da perturbação interior de Ester face à atração sexual pela própria irmã, Anna (Gunnel Lindblom). A trama apresentada por Bergman é apenas um pretexto para forçar uma proximidade entre as personagens e assim, instaurar o conflito: Ester e Anna são obrigadas por um contratempo a parar num pequeno e desconhecido país. Elas se hospedam num hotel, e a partir daí começa uma ruptura de códigos morais (desejos, ciúme, inveja e repressão se colocam entre elas). Isoladas por códigos lingüísticos -ambas desconhecem a língua estrangeira- e incapazes de uma comunicação amistosa, as duas irmãs iniciam um verdadeiro confronto que desencadeia a revelação de nuances obscuras de seus desejos, entremeados com questões existencialistas, como o vazio espiritual e a existência (ou não-existência) de Deus. Para Bergman, a proximidade da morte como forma de redenção põe fim nas questões de ordem física ou psicológica, como o sofrimento de Ester diante da identificação de seus desejos mais intrínsecos, mas faz nascer em profusão as questões espirituais, e essas não podem ser respondidas sem que acarretem mais perguntas e alimentem mais conflitos.

Curioso observar que, ainda que se realizasse filmes como O Silêncio na Europa dos anos 60, em plena era da liberação sexual e do começo de um processo de desconstrução do conservadorismo na sociedade ocidental, a grande maioria das produções americanas ainda mantinha a mesma postura reticente diante de personagens desviados do padrão de sexualidade vigente, e ainda era recorrente que os personagens homossexuais no cinema americano encontrassem um desfecho trágico nas tramas, como se os autores buscassem uma forma de redenção pelo tema apresentado e por este caminho, através da morte como castigo por uma conduta considerada imoral, se tornasse implícita uma vontade de compactuar com o pensamento moralista do público, vide os filmes Apenas Uma Mulher (The Fox), de Mark Rydell, 1967, Na Solidão do Desejo (The Sergeant), de John Flynn, 1968, e Crime Sem Perdão (The Detective), de Gordon Douglas, 1968.

Joe Dalessandro no cartaz do filme Flesh, de Paul Morissey

O ano de 1968 foi marcado por importantes acontecimentos culturais e políticos no mundo ocidental, e é a partir dele que obras subversivas começaram a surgir em profusão, especialmente no cinema chamado underground, a exemplo de diretores como Paul Morissey. Colaborador de Andy Warhol, patrocinado pela Factory, Morissey realizou uma trilogia sobre sexo, drogas e rock and roll iniciada com o filme Flesh, seguido de Trash e Heat, responsável por alçar o ator Joe Dallessandro ao status de ícone da contracultura e ídolo gay. Os filmes de Morissey mostravam um universo outrora invisibilizado pela cultura visual: a cena underground nova-iorquina, com sua gama de personagens: prostitutas e michês, junkies e drag queens.

If... de Lindsay Anderson e a ideologia da contracultura

Ainda em 1968, muitos outros filmes poderiam ser destacados pela sua relevância em torno da liberação sexual; mais precisamente a respeito de identidades sexuais fora do padrão normativo, o filme If…, de Lindsay Anderson trata a homossexualidade com um olhar igualitário, distanciado da abordagem rotineira até então, que privilegiava enfoques analíticos com discurso psiquiátrico, ou caracterizava os personagens gays de forma pejorativa, diretamente pela via da comédia ou como razão central para desvios de conduta, e indiretamente através de desfechos trágicos que só apontavam um destino para os homossexuais nos roteiros dos filmes mainstream. Em If… a palavra de ordem é a anarquia; o inimigo maior é a sociedade burguesa, com sua moral e suas instituições, e todos aqueles marginalizados por ela são abraçados pela contracultura.

Três Mulheres na Intimidade

Influenciado pelo contexto liberal que marcava o final da década, foi também em 1968 que o britânico Robert Aldrich realizou, em seu Três Mulheres na Intimidade (The Killing of Sister George) a primeira cena de sexo entre mulheres num filme produzido para o grande público. O filme também foi notório por incluir uma cena rodada no Gateways Pub, um famoso bar de lésbicas em Londres.

Therese e Isabelle: relatos autobiográficos de Violette Leduc

Escrito em 1948, um livro da escritora francesa Violette Leduc foi censurado pelas editoras da Europa e só veio a ser publicado em 1966. 1968 era o ano propício para que a delicada e realista história de Leduc , onde a sexualidade era vista sob a ótica da descoberta adolescente, pudesse ser levada às telas de forma apropriada. Therese e Isabelle, de Radley Metzger, é baseado nas memórias da escritora, uma lésbica assumida numa época em que poucas pessoas expunham publicamente suas preferências sexuais.

O Teorema de Pasolini: ruína de todas as instituições sociais

O poeta e cineasta Pier Paolo Pasolini foi outro artista a revelar publicamente sua homossexualidade. E foi também no ano de 1968 que o seu Teorema se constituía para a visibilidade mundial como a obra de um gênio e um libelo feroz contra o capitalismo. O filme atacava as instituições sociais com intenções de colocar por terra todos os seus códigos morais. O declínio da sociedade burguesa se iniciava com o abalo de suas bases frágeis e impotentes diante dos desejos que o homem reprime. Terence Stamp, personagem-metáfora do lado humano mais obscuro, seduz e destrói gradativamente todos os membros de uma família burguesa, da empregada até o pai/patrão, ápice da pirâmide institucional que irá inevitavelmente ruir, assim que postos à prova seus preceitos. O posicionamento político de Pasolini, seu comportamento anárquico e a exposição pública de sua sexualidade culminaram em sua morte por assassinato, em 1975.

Teorema

Helmut Berger em Os Deuses Malditos

A decadência das instituições sociais também foi o tema central de diversos filmes da obra do italiano Luchino Visconti. Em 1969, ele inicia sua trilogia alemã com o filme Os Deuses Malditos (La Caduta Degli Dei), um trabalho monumental sobre a ascensão do nazismo e os pormenores da vida burguesa.  Com o foco sobre as condutas morais controversas, engendradas no mecanismo do teatro social, Visconti toca em temas como homossexualismo, pedofilia e incesto, criando uma reflexão amarga sobre a degeneração de uma família alemã como símbolo da instituição família.

O Satyricon de Fellini: valores da Roma Antiga

Também em 1969, Federico Fellini dirigiu Satyricon, sua adaptação da obra de Petrônio, escrita no século I. Satyricon conta a história da disputa de dois homens, Encólpio e Ascilto, pelo amor do escravo Gitão. Os costumes e a moral da Roma clássica são descritos por Fellini em todo o seu esplendor e decadência, de forma estilizada e onírica, mas não se abstendo de explicitar um contraponto entre os valores romanos do ocidente pré-cristão e as normas vigentes no nosso mundo contemporâneo. Há uma passagem interessante a respeito da representação da intersexualidade através da presença de uma criança de aparência andrógina associada ao deus Hermafrodito. Enquanto o intersexo na civilização contemporânea adquiriu o interesse da ciência e uma visão de estranhamento que conduz à invisibilidade por parte da sociedade que o desloca da “normalidade”, na Roma de Petrônio ele possuía um caráter sagrado.

cartaz do filme Midnight Cowboy

A invisibilidade social dos indivíduos que não encontram identificação com o padrão, o peso das diferenças e suas conseqüências sobre a vida de um homem no mundo, especificamente numa cidade grande, e as relações humanas que ousam se desenvolver à margem do permitido são o grande interesse de John Schlesinger em Perdidos na Noite (Midnight Cowboy), a história da amizade entre Joe Buck (Jon Voight), um cowboy texano que se prostitui em Nova York, e o marginal Ratso (Dustin Hoffman). Imersos num universo de segregação e crueldade, Buck e Ratso encontram um no outro uma possibilidade de compreensão e companheirismo, e seu relacionamento se desenvolve no filme de forma ambígua; há um homoerotismo latente na relação de Buck e Ratso; Buck também aceita clientes homens, e a dependência emocional de Ratso pressupõe algo além da amizade. Lançado em 1969, Perdidos na Noite surpreendeu o público na premiação do Oscar de 1970 ao levar as estatuetas de melhor filme, melhor diretor e melhor roteiro adaptado (do livro homônimo de James Leo Herlihy). É um trabalho melancólico e reflexivo sobre a solidão e a marginalização provenientes do desajuste social. O fato de ter sido a primeira produção com classificação X (impróprio para menores) laureada pela Academia com o prêmio de melhor filme lhe trouxe a merecida visibilidade -que jamais teria, sendo uma produção menor com dois improváveis protagonistas-  e  encerra a década de 60 com uma promessa de abertura e maior atenção para a temática queer. Até hoje a obra permanece atual em seu discurso nada panfletário, e sim profundo e delicado sobre uma sociedade que se nega a oferecer igualdade e dignidade para as minorias.

Léo Tavares

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2 respostas para Queer at The Movies: Um Panorama da Trajetória Queer no Cinema

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  2. PHERMENTUMPURULENTUS disse:

    EXCELENTE BLOG. PARABÉNS

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