Muriel/Hugo – Personagens Trans(viados)

Muriel/Hugo é um personagem do cartunista Laerte que está em constante transição. Trata-se de um homem que gosta de se vestir como mulher, mais conhecido como crossdresser. É um personagem com características femininas bastante específicas se levarmos em consideração que Muriel seria uma espécie de alter-ego de Hugo. Muriel/Hugo brinca com a paródia do gênero na medida que exagera e imita a performance feminina e masculina.

O objetivo inicial desse post era escrever um diálogo fictício entre Judith Butler e Muriel/Hugo conversando entre um copo de cerveja e outro sobre gênero e sexualidade num bar qualquer. No entanto, a falta de tempo me fez desistir dessa iniciativa e pra não deixar a idéia abandonada, resolvi arriscar e peguei trechos do texto Problemas de Gênero, da Judith Butler e relacionei com algumas charges.

Quando o “corpo” é apresentado como passivo e anterior ao discurso, qualquer teoria do corpo culturalmente construído tem a obrigação de questioná-lo como um construto cuja generalidade é suspeita.

Na metáfora dessa idéia de valores culturais está a figura da história como instrumento implacável de escrita, e está o corpo como meio que tem que se destruído e transfigurado para que surja a “cultura”.

Os próprios contornos do “corpo” são estabelecidos por meio de marcações que buscam estabelecer códigos específicos de coerência cultural. Todo discurso que estabelece as fronteiras do corpo serve ao propósito de instaurar e naturalizar certos tabus concernentes aos limites, posturas e formas de troca apropriada, que definem o que constitui o corpo.

Os ritos de passagem que governam os vários orifícios corporais pressupõem uma construção heterossexual da troca, das posições e das possibilidades eróticas marcadas pelo gênero. A desregulação dessas trocas rompe, consequentemente, as próprias fronteiras que determinam o que de ser um corpo.

A produção disciplinar do gênero leva a efeito uma falsa estabilização do gênero, no interesse da construção e regulação heterossexual da sexualidade no domnínio reprodutor. A construção da coerência oculta das descontinuidades do gênero, que grassam nos contextos heterossexuais, bissexuais, gays e lésbicos, nos quais o gênero não decorre necessariamente do sexo, e o desejo, ou a sexualidade em geral, não perece decorrer do gênero – nos quais, a rigor, nenhuma dessas dimensões de corporeidade significante expressa ou reflete outra.

Se a verdade interna do gênero é fabricação, e se gênero verdadeiro é uma fantasia instiuída e inscrita sobre a superfície dos corpos, então parece que os gêneros não podem ser verdadeiros nem falsos, mas somente produzidos como efeitos da verdade de um discurso sobre a identidade primária e estável.

Eu sugeriria, igualmente, que o travesti subverte inteiramente a distinção entres os espaços psíquicos interno e externo, e zomba efetivamente do modelo expressivo do gênero e da idéia de uma verdadeira identidade de gênero.

Os atos e gestos, os desejos articulados e postos em ato criam a ilusão de um núcleo interno e organizador do gênero, ilusão mantida discursivamente com o propósito de regular a sexualidade nos termos da estrutura obrigatória da heterossexualidade reprodutora.

Por mais que se crie uma imagem unificada da “mulher” (ao que seus críticos se opõem frequentemente), o travesti também revela a distinção dos aspectos da experiência do gênero que são falsamente naturalizados como um unidade através da ficção reguladora da coerência heterossexual. Ao imitar o gênero, o drag revela implicitamente a estrutura imitativa do próprio gênero – assim como sua contigência.

Se o corpo não é um “ser”, mas uma fronteira variável, uma superfície cuja permeabilidade é politicamente regulada, uma prática significante dentro de um campo cultura de hierarquia do gênero e heterossexualidade compulsória, então que linguagem resta pra compreender essa representação corporal, esse gênero, que constitui sua significação “interna” em sua superfície? Sarte talvez chamasse esse ato de “estilo de ser”; Foucault, de “estilística da existência”. Em minha leitura de Beauvoir, sugeri que os corpos marcados pelo gênero são “estilo da carne”.

Como estratégia de sobrevivência em sistemas compulsórios, o gênero é uma performance com conseqüências claramente punitivas. Os gêneros distintos são parte do que “humaniza” os indivíduos na cultura contemporânea: de fato, habitualmente punimos os que não desempenham corretamente o seu gênero. Os vários atos de gênero criam a idéia de gênero, e sem esses atos, não haveria gênero algum, pois não há nenhuma “essência” que o gênero expresse ou exteriorize, e nem tampouco um ideal.

O fato de a realidade do gênero ser criada mediante performances sociais contínuas significa que as próprias noções de sexo essencial e de masculinidade ou feminilidade verdadeiras ou permanentes também são constituídas, como parte de estratégia que oculta o caráter performativo do gênero e as possibilidades performativas de proliferação das configurações de gênero fora das estruturas restritivas da dominação masculina e da heterossexualidade compulsória.

Alexandr@ Martins


Esse post foi publicado em Queer, Queer Theory, Teoria queer, Visual Culture e marcado . Guardar link permanente.

Uma resposta para Muriel/Hugo – Personagens Trans(viados)

  1. celia disse:

    Sou Professora de psicologia, estava procurando material sobre Genero paa discutir com os meus alunos. Achei esse site muito interssante. Ele atende dois dos meus objetivo:1) Explicar o conceito de Genero; 2) A partir do esclarecimento do conceito, diminuir o pré-conceito e consequentemente a discriminação proviniente da ignorancia.
    Meus parabéns
    Celia Anselmé

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s