Queer at The Movies: Um Panorama da Trajetória Queer no Cinema

Parte I: Dos Early Movies ao Expressionismo Alemão e ao Surrealismo

Alice Roberts e Louise Brooks em A Caixa de Pandora

Muito se tem discutido, entre pesquisadores da área da sexualidade e especialistas da cultura visual, a respeito de uma iconografia gay desenvolvida por meio do cinema. Já em 1895, Thomas Edison exibia seu Dickson Experimental Sound Film, uma projeção de 17 segundos onde dois homens dançavam uma valsa. Segundo o pesquisador Vito Russo, em seu livro intitulado The Celuloid Closet, o filme inicialmente se chamava The Gay Brothers. Ainda que não existam evidências históricas que comprovem a veracidade do título, e que a palavra gay na época não fosse utilizada com essa conotação, ele tem sido amplamente divulgado como o primeiro exemplar de conteúdo gay da história do cinema.

The Gay Brothers

Mas antes de traçar uma trajetória da abordagem gay em mais de cem anos de produções, até chegarmos à profusão de reflexões e visões mais aprofundadas que temos hoje, é necessário observar que o personagem gay na história do cinema foi, durante décadas e décadas, massivamente inserido nas películas para ilustrar imoralidade humana, corrupção e distúrbios psicológicos. Em toda a produção cinematográfica americana, de seus primórdios até o fim da década de 50, quando não exercia o papel de vilão, o gay era relegado aos papéis cômicos e estereotipados, e os artistas que ousaram desviá-los da veia humorística ou das personalidades corrompidas do submundo, precisavam fazê-lo pela via da sugestão e da sutileza.

Na Europa, por outro lado, a exposição da homossexualidade, ainda que não aceita pela sociedade como algo normal, ao menos para a classe artística parecia um elemento merecedor de destaque. Assim pensava o diretor finlandês Mauritz Stiller quando realizou o seu Vingarne, em 1916, uma produção sueca adaptada da novela Mikaël, de Herman Bang. Vingarne narrava abertamente o trágico triângulo amoroso entre um escultor homossexual, seu modelo e uma mulher. Mais tarde, em 1924, Carl T. Dreyer, seduzido pelos sentimentos obscuros evocados em Mikaël, levou a história escrita por Bang à atmosfera do Expressionismo Alemão em sua versão chamada Michael.

Vingarne

Michael

O mesmo interesse pela obscuridade da alma humana motivou o austríaco Georg Wilhelm Pabst ,um dos grandes expoentes do Expressionismo Alemão. Incensado pela crítica européia, Pabst foi um diretor cujo brilhantismo artístico tornava unânimes as opiniões mais ferrenhas, o que lhe deu uma certa liberdade para escolher seus temas sem grandes interferências dos estúdios e lhe permitiu finalmente trazer a público em 1929 o polêmico e perturbador A Caixa de Pandora (Die Büchse der Pandora). Era o fim do cinema expressionista alemão e o começo de um mito chamado Louise Brooks. Hoje considerado um clássico do cinema mudo, A Caixa de Pandora teve inicialmente uma recepção extremamente negativa, motivada pelo teor sexual da trama e pelo comportamento público da atriz Louise Brooks. A vida pessoal conturbada de Louise lhe trouxe uma fama que precedeu sua carreira profissional. Tinha personalidade forte, não se importava em esconder seus inúmeros casos amorosos, alguns com outras mulheres, chocava por suas declarações e algumas vezes comparecia à festas em trajes masculinos. No filme de Pabst, interpretou Lulu, o protótipo da femme fatale avassaladora que acabava por corromper a moral e destruir a vida de todos os homens que dela se aproximavam. Inteiramente construído através de uma acentuação da sensualidade, abordava todos os conflitos psicológicos provenientes do desejo reprimido e da adequação à norma, e para choque maior da sociedade dos anos 20, culminava em um desfecho lésbico, entre a personagem Lulu e a condessa Anna Geschwitz, interpretada por Alice Roberts. Anna Geschwitz é a primeira personagem lésbica da história do cinema.

o mito Louise Brooks

Após o escândalo de A Caixa de Pandora e devido a uma postura libertária demais para o seu tempo, Louise Brooks fez poucos e inexpressivos filmes, e morreu esquecida, em 1985, aos 87 anos de idade. Menos de duas décadas depois, através da restauração de grande parte dos filmes da Era Muda, da publicação de sua biografia e do grande número de pesquisas em torno de sua carreira e do cinema expressionista alemão, redespertou o interesse de especialistas e público, e tem sido reconhecida e alçada ao merecido status de ícone, ainda que com um atraso de quase oitenta anos.

Em 1955, Henri Langlois, curador da mostra 60 Anos de Cinema, no Museu de Arte Moderna em Paris, escolheu uma fotografia de Louise para ilustrar o pôster de divulgação à entrada do museu, e proferiu sua frase clássica: “Não existe Garbo, não existe Dietrich. Existe apenas Louise Brooks.”

Um Cão Andaluz

L'Âge D'or

Ainda em 1929, mesmo ano de lançamento de A Caixa de Pandora, Luis Buñuel e Salvador Dali exibiam em Paris sua parceria cinematográfica, Um Cão Andaluz (Um Chien Andalou),um trabalho provocador que buscava uma libertação estética e moral através do Surrealismo.  A proposta era romper a narrativa tradicional e atingir a burguesia e suas convenções sociais pelo meio do choque: a famosa navalhada no olho da sociedade inicia o filme como um chamado à subjetividade, um convite ao olhar de dentro, ao abandono de todas as normas vigentes, culturais e estéticas. Entre as seqüências subversivas nos 17 minutos de filme, Um Cão Andaluz apresenta um ser andrógino que examina com a ponta de uma bengala uma mão decepada. Esse personagem indefinido possui traços femininos e vestuário masculino, e se encontra numa rua rodeado por uma multidão curiosa. Conta-se que Buñuel compareceu à première do filme, em Paris, munido de pedras nos bolsos, a fim de se precaver de uma reação violenta por parte do público. O diretor saiu ileso da exibição de seu filme-parceria com Salvador Dali. Dois anos mais tarde, porém, seu A Idade de Ouro (L’Âge D’or) mostrava um nobre francês com as feições de Cristo saindo de uma orgia de 120 dias no Castelo de Sellinay –em alusão ao marquês de Sade. Desta vez, porém, Buñuel fora longe demais para a sensibilidade dos conservadores da época, que invadiram um cinema que exibia A Idade de Ouro, rasgaram poltronas, atearam fogo à tela e destruíram quadros surrealistas.

Léo Tavares

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