Queer at The Movies: Um Panorama da Trajetória Queer no Cinema

Parte II: Hollywood e o Cinema Noir

Cary Grant em Levada da Breca

Em 1938, a comédia Levada da Breca (Bringing up Baby), de Howard Hawks, causou furor como uma grande produção hollywoodiana que apresentava a saída do armário de um personagem interpretado pelo galã Cary Grant. Em uma cena tida como motivo principal da demissão do diretor Howard Hawks pela produtora RKO, Grant assume o estereótipo do homossexual e aparece vestido em uma camisola de plumas, tem um ataque de nervos e proclama: “sou gay, por isso estou vestido desse jeito.” Foi a primeira vez que a palavra gay (alegre) foi empregada num filme com uma conotação de orientação sexual.  A sexualidade do personagem, até então enrustida numa personalidade tímida, cuidadosamente adequada à norma, a partir daí se torna clara, mas o filme de Hawks se isenta de adentrar numa discussão aprofundada a respeito. O foco é o embate cômico entre sua personagem e a personagem de Katharine Hepburn, o que é bastante compreensível para uma produção norte-americana da década de 30, destinada ao grande público, cujo conservadorismo, mesmo diante das situações implícitas apresentadas por Hawks por meio de uma veia humorística, não aceitou o filme, que foi um grande fracasso comercial da RKO na época.

Peter Lorre em O Falcão Maltês

Adaptado do romance policial de Dashiell Hammett, O Falcão Maltês (The Maltese Falcon), de 1941, trazia um personagem homossexual interpretado por Peter Lorre. No livro de Hammett, a questão da sexualidade é explícita, mas em sua adaptação para o cinema, o diretor John Huston optou pela obscuridade: estamos diante do primeiro filme do chamado cinema noir, e ainda que o tratamento dado à orientação sexual do vilão vivido por Peter Lorre não deixe margens para a ambigüidade, sua sugestão funciona dentro do roteiro como elemento adicional às nuances sombrias e misteriosas de sua personalidade corrompida, tida como transviada.

Gilda

Outro filme noir da década de 40 a apresentar uma trama voltada para a ambigüidade sexual foi Gilda. Famoso pela cena do strip-tease em que Rita Hayworth despe apenas uma luva, Gilda foi mais polêmico pela tensão homoerótica existente no triângulo amoroso do filme.

poster do filme À Beira do Abismo

Em 1946, oito após o fracasso de Levada da Breca, Howard Hawks volta a inserir personagens homossexuais em seus filmes com o obscuro À Beira do Abismo (The Big Sleep). Adaptado do romance de Raymond Chandler, o roteiro foi realizado pelo também escritor William Faulkner, mas como de costume nas produções da época, a questão da homossexualidade é apresentada como um tema periférico, nunca ganhando uma profundidade analítica no sentido de ser o centro de uma reflexão, mas inserida como um fator vital para a construção psicológica de determinado personagem. Porém, a questão da sexualidade –e da sensualidade- como um todo, sempre esteve presente na filmografia de Hawks. Uma supervalorização das temáticas masculinas poderia pressupor uma inclinação para um “cinema de macho”, mas essa mesma supervalorização acaba, propositalmente, instaurando uma aura de homoerotização nas relações entre diversos personagens da filmografia de Hawks. Mesmo suas personagens femininas (a exemplo de Lauren Bacall neste À Beira do Abismo) a fim de adentrar nesse universo masculino tão demarcado por suas características condicionantes, precisam sofrer uma espécie de masculinização, sugerindo que para vencer num mundo de homens, uma mulher necessita abdicar dos elementos que a tornam uma mulher, e sua sensualidade –sempre latente, mas resguardada como uma arma em caso de necessidade- se revela em momentos de embate com esses homens, lembrando-lhes que elas detêm um poder mais subjetivo que a força; daí a grande tensão sexual que sempre aparece em seus trabalhos.  É como se para os homens da filmografia de Hawk, as mulheres precisassem primeiro mostrar atributos masculinos para se tornarem objetos de desejo.

Burt Lancaster em Brutalidade

Festim Diabólico

Farley Granger e Robert Walker em Pacto Sinistro

Personagens homossexuais são uma constante no cinema noir, o que difere muito da homoerotização dos personagens masculinos héteros de Howard Hawks, por exemplo, que a meu ver, buscava mais uma desconstrução do imagético convencional do herói masculino, para dar-lhes tanto uma complexidade que ultrapassasse o estereótipo do gênero e ao mesmo tempo, funcionasse como uma aura de curiosidade e mistério num tipo de cinema cujos elementos primordiais eram os sentimentos humanos mais insondáveis conduzindo ao desenrolar de ações obscuras, ambíguas, desenvolvidas em universos de luxúria, marginalização e decadência.

No caso dos personagens homossexuais que surgem na filmografia noir, seus exemplos são geralmente constituídos em figuras tirânicas, pervertidas, desencadeadoras dos conflitos que o herói terá que resolver; vilões corrompidos pelo submundo do crime, psicologicamente perturbados, associados às mais diversas patologias num rol de personagens que abrange ninfomaníacos, pedófilos, ladrões e assassinos. Para Richard Dyer, em seu artigo intitulado Homosexuality and Film Noir, é possível supor que uma iconografia gay noir é mais um dos fatores que influenciaram a visão pública muito estereotipada, e até bem pouco tempo predominante, sobre os gays e seu modo de vida. Filmes como Laura (Laura), de Otto Preminger, 1944, Brutalidade (Brute Force), de Jules Dassin, 1947, Festim Diabólico (Rope), de Alfred Hitchcock, 1948, No Silêncio da Noite (In a Lonely Place), de Nicholas Ray, 1950, Pacto Sinistro (Strangers on a Train), de Alfred Hitchcock, 1951, e Pelos Bairros do Vício (A Walk on The Wild Side), de Edward Dmytryk, 1962, entre muitos outros, apresentaram personagens gays que são vilões ou pecadores, sempre à margem, inseridos no contexto de perversão ou doença que as instituições sociais trataram de reforçar no imaginário popular.

Léo Tavares

Esse post foi publicado em Uncategorized e marcado , , , , , , , , , , , , , , , . Guardar link permanente.

4 respostas para Queer at The Movies: Um Panorama da Trajetória Queer no Cinema

  1. Hannah disse:

    Oi léo, assisti alguns filmes recentemente que talvez possa complementar sua pesquisa:
    o primeiro é baseado no início dos díarios da Anaïs Nin e conta um pouco como ela descobriu sua própria sexualida; Henry and June. O segundo também baseado em um diário de uma mulher homossexual na Inglaterra no sec. 19; The secret diaries of Miss Anne Lister. Bom, fica a dica!

  2. Léo disse:

    Oi Hannah! Obrigado pelas dicas. Esse filme sobre Anne Lister é recente? Vou dar uma pesquisada nele. Como vc deve ter visto, estou fazendo por ordem cronológica, e como o último post que publiquei é a parte 3 da pesquisa, ainda não chegamos na década de 70, portanto ainda estou pesquisando dos anos 70 pra cima. A partir dos anos 60 tem muita coisa, por isso estou tendo que fazer uma triagem e decidir pelo que é mais significativo na abordagem do tema ou no impacto que teve para a história do cinema. Muito por isso, fico em dúvida quanto a escrever sobre o Henry & June. É um ótimo filme, existe algo de interessante para se falar de sexualidade no relacionamento da Anaïs Nin com a June Miller, e o roteiro chega a discutir o papel da mulher na primeira metade do século XX, mas para um filme dos anos 90, acho que fica meio perdido em termos de relevância porque existe bastante material dessa década que analisa a questão queer mais profundamente. Mas gostei da dica, não lembrava dele e com certeza vou incluí-lo na minha pesquisa, só não sei mesmo se vai caber postá-lo na parte que trata dos temas queer no cinema dos anos 90 ao de hoje…
    beijo.
    🙂

  3. Uma das imagens (escaneada e tratada por mim) foi retirado do seguinte endereço:
    http://cidadaoquem.blogspot.com/2009/01/gay-pela-primeira-vez.html

    Muito provavelmente informações inclusas em seu post também foram retiradas do mesmo endereço.

    Infelizmente só há como fonte um blog em inglês…

  4. Pingback: Queer at The Movies: Um Panorama da Trajetória Queer no Cinema | Cultura Visual Queer

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s