NÃO SE ESCONDE, VEM PRO SAPABONDE: funk lésbico

Quando me mandaram entrevistar o Sapabonde, tínhamos acabado de curtir os versos “Um, dois três – quantos dedos você quer? Eu só quero te comer e eu te como até de ré” na redação da Vice, que foi tomada pelo clima “churras em Fortal” do vídeo indicado pela Stefanie Gaspar. Afinal, o que pode ser mais contagiante que oito minas descontraindo sobre suas proezas sexuais num funk metronomado na palma da mão? Sucesso sapa e além, o Sapabonde é como diz a MC Luara Marola de Fogo: “tu pega uma vez, depois quer de novo”. Graças às cervejas que aplacam a secura de Brasília, as MCs Carol Bitch, Holy Maria, Jubinha, Luara Marola de Fogo, Mary Versátil, Nina Afeta as Mina, Sereia e Tava G botaram tudo na mesa. Mas foi em Fortaleza, batucando na caixa de breja que as rimas foram gravadas e chegaram ao YouTube, para nossa alegria e constrangimento da família.

No dia em que anunciaram como o de lançamento de seus novos MP3, engrossei a voz, vesti um terninho e falei com as meninas. Durante a ligação elas confessaram o sonho de serem interpeladas por Marília Gabriela, o que pareceu um sinal. Já o lançamento foi adiado, porque segundo Mari Versátil, “O Sapabonde é só quando dá vontade”. Isso significa que, por enquanto, a transa legal que você pode consumir são esses emoticons para MSN com adágios de cada uma das MCs. Então vai, deixa o ménage rolar.

Conta aí, sinistra a cena lésbica do DF?
MC Luara Marola de Fogo: Não sei se você já ouviu falar que Brasília é um ovo (de codorna). Pois é, a metáfora se aplica a cena lésbica também. Aqui, uma hora você vai ter que namorar a ex de alguma brother. A gente acha ótimo quando vê uma galera de sapas que ninguém conhece, ou fazendo algo que nunca ninguém fez.
MC Mari Versátil: É muito difícil ter festa de lésbica aqui, não emplaca. Tanto pela falta de público quanto pela burocracia. A maioria das casas aqui têm alvará provisório, e como esse ano é de eleição, resolveram mostrar serviço e fechar uns lugares.

Fala sério que é tudo ativa. Confessem.
MC Carol Bitch: Pois é. Quando a gente canta, interpreta um personagem, que é esse estereótipo de sapatão pegadora. Não somos assim na vida real mesmo. Até porque não tem como ficar por cima o tempo todo, né? Cansa.
MC Luara: Não mesmo! Estamos tentando nos desvencilhar dessa “auto-promoção anti modéstia funkeira”. Na real a maioria das letras são uma ironia dos estereótipos da cena lésbica transpostos pro formato “pimp do funk”, na baixaria. Isso deve acabar transparecendo nos nossos próximos funks. Tanto a auto ironia quanto o fato de que a velha dicotomia ativa-passiva já não existe mais pra várias meninas. Muito menos pras meninas do Bonde. “Hoje eu tô afim! Ho-Ho-Hoje eu tô afim! Eu te como, tu me come, porque sexo é assim.”

A gente tá ligado que em Brasília o pessoal curte é treta. Já arrumaram problema por aí?
MC Luara: Yep. Tem uma galera que nos odeia e nos chama de lésbicas machistas heteronormativas, mas a gente pega mais mulher que elas. [Risos] Brincadeira, não objetificamos mulheres a não ser quando fazemos esse tipo de brincadeirinha babaca daí de cima. Mas a parte que tem um galera que não foi com a nossa cara é verdade, fazer o quê. Da cena musical só rola apoio. Foi pesado quando uma galera que já estava acostumada a ouvir nossos batuques nas festas nos viu no YouTube e resolveu se horrorizar. Aí rolou uma reação bem forte, escalafobética e oportunista. Até nos acusaram de fazer apologia ao estupro. Mas tirando essa parte absurda, as críticas foram super construtivas pra pensarmos sobre a mensagem que o bonde passa. Hoje rola um cuidado maior pra não soar machista e sexista. Mas, convenhamos: a gente canta funk! Então tem que ser baixo, pesado e proibidão.

E o que as mães de vocês acharam das letras?
MC Luara: Você mostrou pra ela? Nem eu.
MC Carol: A mãe da MC Mari super canta com a gente. A minha mesmo nem sabe da existência do Sapabonde. Acho que ela não aprovaria por ser baixaria ou funk lésbico, mas simplesmente por ser FUNK. [Risos]
MC Mari Versátil: Alguns pais se amarram e pedem rimas personalizadas. Os meus são um caso a parte. Já a Mônica, mãe da Guaia, é uma mulher discreta. Ela até canta com a gente, mas pede pra ser mais baixo para os vizinhos não ouvirem.

[No telefone, MC Tava deu uma palhinha dos versos feitos para a versátil mãe da MC Mari: Vem tia Mara, vem tia Mara / Vem tia Mara senta aqui na minha cara!]

É pesada a tensão sexual entre as “HT” até uma hora e o bonde? Vocês não têm preconceito?

MC Luara: A gente vai deixar essa história com a Mc Tava G que ela pode falar com mais propriedade.
MC Tava G: Virei “O Terror das HT” porque era meu karma. Pegava um monte de mina “HT” nas festas de rock, porque essa cena aqui é muito hétero. Mas tá valendo, né. É tudo mina.

MC Carol, ficamos impressionados com a precisão rítimica do seu batuque. Você toca algum instrumento?
MC Mari Versátil: Ela toca garrafão de vinte litros, tampa de lixo e caixa de cerveja.

Dinheiro, sucesso, fama. Como “as Spice Girls brasileiras do novo milênio” lidariam com isso?
MC Tava G: Tá todo mundo na universidade, graças a Deus.
MC Mari Versátil: Ainda não apareceu nenhuma proposta, e é claro que rola uma vontade de poder viajar, tocar em Berlim. Mas largar tudo o que temos pra virar funkeiras, não sei não.

Já ouvi falar que vocês tão sendo chamadas pra tocar em festinha por aí. Vão tocar o que?
MC Mari Versátil: Olha, nem sei como vai ser isso. São oito minas e acaba saindo caro transportar e pagar cerveja pra toda essa gente. E funk de verdade é putaria, não é gospel — se quiser ver mesmo tem que ser ao vivo.
MC Holy Marie: Bom, dentro do bonde temos duas DJs: a MC Holy Maria e a MC Carol Bitch, mais conhecidas como HOLYBITCHES! O Sapabonde em si nunca se apresentou, mas nunca desperdiçamos uma oportunidade de tocar um remix das nossas músicas por aí. Quanto ao set, você tem dúvidas? FUNK, CLARO! Marina Gasolina, Bonde das Impostora, Bonde do Rolê, MC Gi, Edu K, Diplo e Deize Tigrona estão sempre na nossa case.

Mas, convenhamos: a gente canta funk! Então tem que ser baixo, pesado e proibidão.

Ok, chega de baixaria. Hoje sou a Marília Gabriela e quero falar de amor e relacionamentos.
MC Tava: O amor é um tédio sem remédio. Aqui é tudo comedora.
MC Mari Versátil: Se eu comesse todo mundo que falam que eu como…

Voltando, AMOR. Quais suas músicas de amor favoritas?
MC Luara: Fique sabendo que você está falando com um libriana ascendente em libra! Pedir uma só é sacanagem. Vou reduzir pra três, pode ser? Pedro Luís e a Parede “Noite Severina”, “Anyone else but you” do The moldy peaches e Vinícius de Moraes “Minha namorada”.
MC Holy Maria: Yeah Yeah Yeahs, “Modern Romance”.
MC Carol: Com certeza é Calypso, “Me telefona”.

Para encerrar, uma frase.
MC Tava: O Sapabonde é assim: suingue, suingue pra você e pra mim.

POR NATASHA FELIZI VICE BR
FOTO DIVULGAÇÃO

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