Vista-Grossa

Senti grande necessidade de escrever sobre isso. E antes que eu comece a discussão, será necessário contextualizar toda a história. Um pouco de paciência, já chego onde interessa.

 Sempre tive uma visão deturpada da profissão professor. E algum tempo depois de concluído o ensino médio, aconteceu de eu estar em Brasília, passei pro curso de graduação em Artes Plásticas na UnB.

No dia do registro, soube que teria de escolher entre a licenciatura e o bacharelado, eu não teria as duas habilitações de mão beijada. E aí? Abri mão do título de professora, aquela “segurança implícita”, pra ter um título de bacharel, que eu já sabia que não me garantia porcaria nenhuma. Mas qualquer coisa me parecia melhor do que lecionar.

No decorrer do curso, me deparei com tantos seres pensantes, inteligentes, e tantas boas idéias, que me fizeram enxergar que existe esperança no ramo da educação. Romantizei a licenciatura como jamais teria imaginado.

Então acontece de eu tomar um ônibus para a L2 Norte via esplanada, era por volta de 13:30h, e muitos passageiros eram alunos de escola pública. Sentei no fundo do ônibus, ao lado de um estudante, ele pôs pra tocar, em seu celular azucrinado, música sertaneja dor-de-cotovelo. Decidi mudar de lugar. Fui pro meio do ônibus, e pra meu desgosto, dois garotos sentados nos bancos de trás, uniformizados, um com não mais que 13 anos, e ao outro, eu não daria nem 11; colocaram pra tocar umas músicas que eu nem sei classificar, mas por todo o ônibus ecoava “xoxota, xoxota, eu gosto é de xoxota…”, entre outras.

Eu pensava “ca#a*ho… esses moleques ainda nem sabem limpar a bunda direito e já ouvem esse tipo de música”, enquanto os dois davam risadinhas de satisfação. Foi quando algo em mim falou “Você quer mesmo dar aula, Elisa? Quer mesmo ter que lidar com esse tipo de irritação? Como você agiria se esses pentelhos fossem seus alunos?”. E isso ficou na minha cabeça, lembrei de meus professores, desde a quarta série, realmente, naquela época meus coleguinhas já apresentavam um tipo de comportamento parecido (não existia mp3 e tampouco celular que tocasse isso em 1995, mas a garotada bem de vida levava seus walkman pra escola com fita k7 do É o tcham!).

Lembrei de uma ocasião em que um deles começou a falar, em aula, que já tinha “perdido a virgindade”, muito orgulhoso, tomando toda a atenção da sala pra si, enquanto a professora escrevia mais uma lousa de texto. Finalmente, quando cansada de pedir que os alunos se comportassem, mandou o sujeito para a direção. Era algo que ocorria ocasionalmente, e um dia ele foi expulso, “era um encrenqueiro” se ouvia das bocas alheias.

Será que a professora não prestou atenção ao motivo da discussão ter tomado a classe? Ela fez vista grossa, não queria pensar em se enrolar no assunto, era a opção mais simples mandar o aluno para a diretoria, e esta punição serviu de exemplo a todos os demais que se sentissem impelidos a abordar o tema em sala de aula.

Aquela professora, a meu ver, perdeu uma boa oportunidade de “educar”.

Logo me imaginei gloriosa, transbordando de felicidade, olhando para os grupos de alunos, a tensão tomando o ambiente da sala de aula, cada um empunhando a letra da música “…eu gosto é de xoxota…”, e então eu proclamo, “Turma, hoje vamos discutir a letra desta música. E pra quem tiver alguma objeção à atividade, digo o seguinte: mais vale compreender para criticar do que repudiar na ignorância”.

E então tudo fez sentido, o motivo de eu ter sempre expurgado a idéia de lecionar, é porque a imagem da profissão ficou associada, em minha cabeça, à manifestação de hipocrisia, alienação, descontextualização, negligência, sonseira, etc. E percebi que imprecar contra aquelas duas criaturas no ônibus, significava seguir os passos da maioria dos professores que tive na vida. Fazendo vista grossa, ao invés de aproveitar a ocasião pra usar a criatividade em favor da educação.

A proposta de queerizar a sala de aula se aproveitando da espontaneidade dos alunos para os “assuntos problema”. Será que é possível?

Elisa F. Lovo

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2 respostas para Vista-Grossa

  1. culturavisualqueer1 disse:

    Esperamos que seja possivel.
    E

  2. culturavisualqueer1 disse:

    Esperamos que seja possivel, e que outros educadores tambem pensem assim

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