LOST GIRLS: A OBRA PORNOGRÁFICA DE ALAN MOORE E MELINDA GEBBIE (a questão da imagem pornográfica e suas relações com a educação)

Wendy (Peter Pan), Dorothy (O mágico de Oz) e Alice (Alice no país das maravilhas) são as protagonistas desse quadrinho rotulado como pornográfico pelos próprios autores. Começo do sec. XX, momento em que o mundo está prestes a presenciar uma catástrofe irreversível, a Primeira Guerra mundial, as três personagens se encontram num luxuoso hotel austríaco e compartilham suas mais extravagantes e libidinosas experiências sexuais. Parecendo, através de seus relatos eróticos, se oporem a toda essa áurea de violência e repulsa que se forma na Europa.

Depois de 17 anos de trabalho, Alan Moore e Melinda Gebbie lançaram esse quadrinho que explora o lado mais íntimo dessas personagens do mundo literário infantil. Fato este que não é nada ocasional. Ao trazerem personagens de fábulas infantis, Alan e Gebbie buscam evocar o aspecto mais lúdico e sensível de um dos momentos que marcam a transição da infância para a adolescência, a descoberta da sexualidade.

Ao rotularem a obra como pornográfica, os autores, assumem um forte compromisso em defesa da pornografia e sua relação com a arte. Em entrevistas, Alan Moore trás interessantes pensamentos sobre sua visão dessa polêmica discussão. Revela que ao trabalharem nessa obra, os dois buscaram serem o mais sinceros possíveis com relação aos seus pensamentos sexuais, e trás sua opinião de que a pornografia nos últimos anos “não tem nenhum valor artístico e parece criada para estimular as pessoas a qualquer coisa outra que não o sexo”. Isto porque, segundo o autor, um dos mais importantes aspectos da arte é que quando ela expressa algo do qual nós sentimos, mas não conseguimos expressar, nós deixamos de nos sentirmos sozinhos e passamos a compartilhar algo que é natural a todos. Algo que, segundo ele, ocorria no período do Decadentismo do sec. XIX (época de profícua produção pornográfica) e que não ocorre mais hoje em dia, pois a atual pornografia faz com que nos sintamos mais solitários e envergonhados por vê-la, devido ao fato de não possuírem nenhuma ressonância moral e profundidade estética. Enquanto escreviam e refletiam sobre como abordar a sexualidade na história, essa foi uma das questões mais importantes para eles. A obra deveria conter profundidade, para não correr o risco de se tornarem banais e simplesmente reduzirem seus personagens a objetos sexuais incapazes de manifestar sentimentos e expressar os desejos humanos em seu valor estético e moral. Assim, eles pretendiam eliminar esse aspecto de vergonha, que a pornografia atualmente carrega. (Veja mais na entrevista: http://g1.globo.com/Noticias/PopArte/0,,MUL78296-7084,00.html)

Sabe-se que a exploração da imagem pornográfica adquiriu vários sentidos em diversas épocas, a cada momento, a cada contexto cultural teve um tratamento e uma assimilação diferente. Desde ligações religiosas a práticas do cotidiano. Lembro-me de me sentir incógnito ao me deparar com imagens antigas de conteúdo fortemente explícito, contendo zoofilia, pedofilia, entre outros. Ora, impressionado, me questionava sobre o que aqueles artistas pretendiam com elas, ora o senso-comum me levava a crer que eles eram insanos, vítimas de práticas culturais primitivas e banais. Hoje, ainda busco entender o teor dessa iconoclastia, mas já tendo em mente que a arte já se prestou a diversas funções, e talvez esses artistas tenham reparado o poder da imagem se multiplicar em discursos. Penso que ao artista trazer uma imagem, ele pode não simplesmente ter a intenção de justificar uma idéia, mas simplesmente de MOSTRAR um aspecto que está presente em nós, mesmo que não aceitemos isso. Penso que o mostrar pode ser um exercício de sinceridade e nem sempre está ligado a fatores ideológicos. Algo que faz com que nós nos aceitemos em nossas condições e contradições.

Como a cultura visual dá voz às imagens do cotidiano e nos faz ver que a imagem é um meio de compreender e assimilar o mundo, acho importante levar em consideração de que forma a imagem pornográfica nos educa (ou nos corrompe), como ela se comporta no cotidiano e como ela é assimilada. Quero deixar claro que quando falo imagem pornográfica, falo não só do mercado pornográfico, mas de todo o uso que se fez e que se tem feito de imagens de conteúdos sexualmente explícitos. Por que ela, contemporaneamente, está tão ligada à idéia de banal, vergonhoso, obsceno se uma das coisas que ela nos revela é também um dos aspectos de nossos desejos? Como a sexualidade se tornou algo digno de vergonha? Como ela deve ser tratada para não se tornar banal?

Sabe-se que a maior parte dos jovens tem acesso a esse tipo de imagem quando querem, e que muitos começam a saber sobre sexo com elas. Com quais finalidades eles a procuram? Que efeitos elas exercem sobre eles? Como eles reagem a elas?

Penso que a curiosidade está muito ligada a essa fase, e que às vezes, os jovens encontram aí, na imagem, uma forma de responder a sua curiosidade. Mas como ela pode ser abordada crítica e reflexivamente não só na sala de aula, mas também no cotidiano? Considero essa uma importante questão para se levar a prática de ensino, embora eu tenha mais perguntas do que respostas.

Por Lucas M. Sampaio

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