Amor Andrógeno

Minha mãe estava no metrô de Paris, a primeira vez em que viu (percebeu) uma pessoa que não dava para saber ao certo o que era , homem ou mulher? talvez os dois. Isso à deixou fascinada de tal forma que mal conseguia tirar os olhos dela(e). Ela ficou com essa imagem na cabeça por muitos anos, até que recentemente eu lhe falei sobre cultura visual e teoria queer, imediatamente ela se sentiu impelida a escrever um conto queer em uma oficina literária. De forma sutil, ela conta uma história de duas pessoas que se encontram, e em momento algum se sabe a que sexo / sexualidade / gênero estes dois seres possuem.

Amor andrógeno

Quem é que me olha assim? Nunca acreditei em amor a primeira vista. Acho que nem o Amor. A pessoa de quem falo tem um jeito muito especial de ser e de se vestir. Isso mexe comigo. Preciso saber mais. Não sei como me aproximar. Desde que conversamos naquele aniversário estranho daquele amigo muito louco, não páro de pensar. Fiquei em êxtase com seu jeito. E agora, não sei como estender a conversa. Talvez se eu perguntasse mais ao amigo em comum, eu poderia emendar o oi  a uma pergunta que fizesse o Amor parar. Aliás, parar é uma coisa difícil, isso eu percebi. Por toda a noite,  observei com quantas pessoas conversou, quantas músicas dançou e quantas taças bebeu. Isso eu percebi bem. Tranquilidade não me parece um ponto forte. Naquele dia, pareceu ter ido direto do trabalho para a festa, pois usava um trench coat, largo, amarrado na cintura. Tá bom. Normal para um dia de chuva. Não sei porque achei que tivesse ido direto. O estilo e o cabelo mais curto não ajudam muito a perceber se de fato teria se arrumado para ir a tal festa ou se teria saído do trabalho direto para aquele antro de loucura. Aquela festa não me sai da cabeça. Gente de todas as idades e direções. Só o Luiz para atrair tantos tipos diferentes. Médicos, artistas, loucos, mulheres vestidas-para-matar , outras menos, gente nova, velha e muito, muito,muito whisky e rock-and-roll. Também, nosso amigo  é da geração coca-cola, dos punks e tal. Eu também, mas não me sinto lá. Ele sim. Depois de muita conversa sobre os eightie`s , eu, o Luiz e a tal provável-pessoa-da-minha-vida, me dei conta que não sabia seu nome. Como assim? Esqueci de perguntar. Também, não precisou. Nossos olhares  cruzaram-se a noite inteira. Nossas almas sabiam muito bem quem éramos. Elas sim é que realmente se desejavam. O corpo apenas um instrumento para materializar todo este encantamento.

Preciso exercitar a minha autoconfiança. Hoje tem reunião no departamento. Não estou com a menor vontade de ir. O que me motiva é a possibilidade de encontrá-lo, o Amor. Isso foi mesmo uma coincidência, encontrar o Amor aqui. Todos os anos abrimos cursos para a comunidade. É uma idéia do departamento. Queremos difundir a arte, é o que dizemos. Naquela noite louca me falou de sua inscrição no curso de escultura. Ainda bem, pois posso te reencontrar, pensei, este amor estilo-primeira-vista. O trabalho no departamento é bom.  As aulas que dou são de uma matéria inicial do curso de artes. Desenho I. Corpos nus, papel e lápis. Assim passo os dias. Bundas viradas, peitos, bucetas, pintos em todas as posições e a turma desenhando. Eu passo dando dicas, corrigindo. Tudo muito leve. Me sinto livre. Aqueles corpos não me excitam, nem incomodam. É muita liberdade não se excitar vendo os nus. Homens e mulheres trafegam pelas minhas aulas e nada me chama mais a atenção ou surpreende. Sou livre. Livre para amar. Falando em amor, vejo o trench coat passar. Distante, correndo como sempre. Não posso gritar e chamar. Uma aluna interrompe o meu olhar. Não consigo ouvir o que ela diz. Meus sentidos estão totalmente voltados para aquele Amor que agora vira e vai embora. Que pena. Só agora vejo a expressão indignada de Maria, essa aluna tão brilhante. Não sei o que lhe responder  e peço desculpas. Ela sai furiosa. Sigo para a sala de reuniões que fica ao lado da secretaria.  Sento ao lado do professor de escultura. Escultura. Lembro do Amor, imagino suas mãos. Não consigo concentrar-me na reunião. Só penso naquele trench coat e isto me consome. Preciso dar um jeito. Decidimos abrir mais turmas  para a comunidade, é a diretriz do novo reitor, aliás, uma mulher interessante, esta. Chegou a bem pouco tempo da Alemanha, sempre de vestido, com uma nova abordagem sobre a educação universitária e a interação com a comunidade é uma de suas prioridades. Ocupar as salas, os professores, a estrutura toda. Presumo que teremos mais trabalho este ano. Que bom. Concordo em abrir uma turma em meu horário livre. Desenhar é um atributo que todo ser humano tem e que nem sempre desenvolve. Começaremos a divulgar semana que vem.

Volto para casa. Não abro a janela do carro. Chove muito e me lembro do trench coat amarrado na cintura. Bege. Cor de pele. Pele. Meus alunos ainda não desenham a pele. Só o contorno, as formas. Desenhar homens é mais difícil, por causa dos músculos. As mulheres possuem mais curvas. Os modelos ganham bem para ficarem nus. Ás vezes dormem numa posição. Acho engraçado dormir com as pernas abertas e os braços levantados. Nus. Mas dormem. Abro a porta. Adoro esta porta amarela. Uma ousadia. Minha casa é mesmo o melhor lugar para estar. Encontro a bagunça de sempre. Não me acostumo com as tarefas domésticas. Anos com empregada fazendo tudo. O telefone toca e corro para atender. Cai na secretaria eletrônica e eu escuto a voz. Reconheço o Amor. Não acredito. Interrompo a mensagem e solto um comovido “oi, sou eu” e a resposta vem, desconcertada, “você?”. Rimos. O bege me volta à cabeça com a sensação de pele, tato. A voz também parece bege, pele. E logo começo a dizer que quase nos encontramos hoje à tarde na universidade  quando a voz bege interrompe convidando-me para uma taça de vinho. Bege e vinho duas cores que eu adoro. Claro, respondo. Quando, pergunto. Agora.

Corro para o chuveiro. Não há tempo para grandes produções, mas um banho é o mínimo. Escolho uma roupa confortável, com um certo estilo. Nada muito formal nem tão casual. Vou de bege. Acho que cheguei cedo. Um lugar simpático e acolhedor. Primeira vez. Quem me recebe é uma mulher muito bonita e sem alma. Não sinto sua essência. Talvez seja parte do seu trabalho não deixar-se ver apesar da roupa colada no corpo. Aponta para a mesa do canto. Sorri. Escolho ficar de frente para a porta. Um brilho. Chegou com o cabelo molhado e um jeans bem largo. Muito casual, sensual. Sorri e senta-se ao meu lado. Pede a carta de vinhos. Fala com intimidade com a garçonete e percebo que não é a sua primeira vez. Nunca vi tanta atitude. Rapidamente escolhe o vinho. Nem me perguntou. Esta personalidade é mesmo apaixonante. O cabelo curto seca muito rápido. O perfume é uma delícia. Falamos de arte, de cultura, música e viagem. Estivemos na mesma época em Paris?  Descobrimos amigos em comum. Pede mais um vinho. Agora um Borgonha. Pinot. Ainda bem que gosto de Pinot. Continuamos a nos descobrir. Quanta força e assertividade, e de saco cheio da vida executiva, foi fazer um curso de escultura. Me contou. Fantástico. O meio publicitário é muito competitivo. A mulher sem alma passa para oferecer algo para comer, seu vestido é bem transparente, e seus olhos frios encaram o meu Amor sem o menor constrangimento. Decido ir ao toalete. Peço licença. Sinto ciúmes?

Volto e vejo que um casal sentou-se à nossa mesa. Possuem olhos vivos e mente tranqüila. Eles se harmonizam. Apresento-me e sento-me ao lado de um deles já que meu lugar está ocupado. Vi de longe que era uma mulher bonita, seus cabelos longos não deixam dúvida sobre sua feminilidade. Ao meu lado uma alma masculina em um corpo mais ou menos feminino. Não posso deixar de analisar suas formas. Parte do olhar que desenvolvi para o desenho. Muito divertido. Rimos muito. De vez em quando, os olhares se cruzam e um arrepio me inunda. Em segundos o desejo me consome. Ai, Amor, como você pode ser assim tão especial e ainda nem sei seu nome! Decidimos, todos, sair para dançar. Ótima idéia. Tomo uma atitude,  peço a conta. Claro que dividimos por dois. Nossos amigos não tomaram nada. O casal segue em um carro estilo jipe e eu, no carro do meu Amor. Sinceramente, eu nunca tinha feito isso antes. Nem sei o seu nome, mas nem preciso perguntar. O desejo só aumenta. Na porta da boate me beija. Um tremor nas pernas e me deixo levar. Beijos intensos, não há mais o que dizer. Não reparei se o casal de amigos chegou. Tomo a chave da sua mão e nos conduzo ao carro estacionado na garagem.

Texto: Deise  Rodrigues

Hannah Gomes

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