(re)criando os feminismos – Por que queremos abertura dos encontros feministas às pessoas trans

O presente documento foi escrito por travestis e mulheres trans que reivindicavam, em 2005, a participação no 10º Encontro Feminista Latino-Americano e do Caribe que aconteceu em São Paulo. A proposta da carta ocasionou a discussão sobre a inclusão desta temática nos encontros e coloca em tona, inclusive, o próprio conceito do que é ser “mulher”, do que é ser “feminista” e qual local político dxs sujeitos que estavam presentes no movimento feminista naquela ocasião.

POR QUE QUEREMOS A ABERTURA DOS ENCONTROS FEMINISTAS ÀS PESSOAS TRANS:

Este documento é uma contribuição para o debate sobre esse tema que se realizará durante o 10º Encontro (São Paulo, 9-12 outubro, 2005). Não está dirigido à Comissão Organizadora do 10º Encontro – que não tem atribuições para decidir sobre este tema – mas a todas as feministas que participarão do Encontro e que discutirão e talvez cheguem a uma decisão sobre este tema na plenária.

No Encontro Feminista Latino-Americano e do Caribe, que acontecerá em São Paulo de 7 a 12 de outubro de 2005, se discutirá a inclusão (ou não) das travestis e das mulheres trans nos encontros. Como sabemos que, por diferentes motivos, não todas estaremos lá, Airea na e o Programa para América Latina e Caribe do IGLHRC fazem circular essa carta para que, quem desejar, assine e possa distribuí-la no encontro, como forma de fazer ouvir todas nossas vozes.

Onde quer que se trace uma linha, ela atravessa sempre  a carne macia de alguém.
Raven Kaldera, ativista intersex

1. Porque acreditamos que o feminismo é uma corrente de opinião, uma força política, e um movimento social. O que define que uma pessoa seja (ou possa ser) feminista ou não são suas idéias e suas ações, nunca sua anatomia.

2. Se as identidades são auto-definidas e políticas, e se o gênero é uma construção, isso vale para todas e todos, trans ou não trans. Mesmo aceitando a premissa de que só é possível ser feminista se se é mulher, se uma pessoa se define como mulher trans e feminista, nós não temos nenhuma autoridade para lhe dizer que não o é, e fechar-lhe o acesso a nossos espaços.

3. Muitas de nós trabalhamos há anos, em diferentes espaços, com pessoas trans e com homens, cujas visões de mundo e atitudes cotidianas são feministas. E não trabalhamos, também há anos, com mulheres cujas visões de mundo e atitudes cotidianas consideramos patriarcais e antidemocráticas. Se alguma vez fomos mulhereristas, a vida nos convenceu que o patriarcado não é sinônimo de pênis, nem feminismo sinônimo de vagina.

4. As travestis e mulheres trans não são um bloco uniforme, como não o são as feministas diagnosticadas “mulheres” pela ou pelo obstetra que nos examinou quando nascemos. Há entre elas – e entre nós – quem reforça os estereótipos de gênero e quem os questiona, quem tem um discurso biologicista e quem fez avançar a crítica aos discursos médicos sobre sexo alimentando-se da reflexão feminista sobre gênero. A inclusão de companheiras trans e o diálogo sobre questões trans ajudam a todas nós a avançar na reflexão crítica sobre gênero.

5. Compreendemos a necessidade de espaços em que se esteja “entre idênticas”. Esses espaços podem conviver perfeitamente com um Encontro aberto a outros gêneros/sexos (através de oficinas fechadas, por exemplo). Mas a inclusão de pessoas em um Encontro Feminista regional é uma mensagem forte demais sobre o que o feminismo latino-americano do século XXI diz sobre si mesmo para que deixemos passar esta exclusão.

6. Ainda estamos lutando por um feminismo que integre de maneira genuína a diversidade étnica, etária, lingüística, de preferências sexuais e de classes sociais. Mas ao menos nessas áreas já existe consenso – às vezes cosmético, às vezes genuíno – sobre a necessidade de tal inclusão. Chegou o momento, acreditamos, de somar a categoria gêneros/sexos à gama de cores do arco-íris que o feminismo ainda necessita vestir.

É preciso abrir-nos, ampliar nossas perspectivas, responder aos desafios que o feminismo nos coloca hoje. Queremos um espaço no qual nós, pessoas de diferentes gêneros e sexos (assim como cores de pele, anos vividos, fantasias eróticas, tamanhos de conta bancária ou de sua carência, preferências gastronômicas etc.) possamos nos respeitar, dialogar, escutar e construir juntas nossa política a ação feministas para este século.

“Estamos há alguns anos trabalhando contra todo fundamentalismo e sabemos bem que estes essencializam as pessoas de acordo com o grupo aos quais pertencem, que não aceitam a diversidade, nem as identidades mutantes e que tudo isso se constitui em causa de perda de direitos das mulheres. Não podemos resignar-nos a que persistam fundamentalismos e essencialismos no-nos feminismo-s”.
Aline Bareiro, feminista, diagnosticada como mulher ao nascer.

Alexandra Martins

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