A flor do meu desejo

Chamado de “pequena morte” pelos franceses, o orgasmo conserva algo de misterioso e transcendente. Contudo, ainda é acompanhado de desinformação e preconceito, principalmente com relação às mulheres.

 

MARIA FERNANDA SEIXAS

RAFAEL CAMPOS

 A caminho do orgasmo - (Gustavo Moreno)

“Garanta a ela um orgasmo”, anuncia a seção “como fazer” de uma prestigiosa revista masculina. O tutorial enumera passos simples do tipo “aperte o bumbum dela com ambas as mãos, pois lá existem muitas terminações nervosas” ou “na posição papai e mamãe, mantenha as pernas dela unidas”. Pronto, isso basta para que certos homens — menos experimentados — pensem ter desvendado o prazer feminino. Outros, tentarão se garantir com os famosos comprimidos azuis, o Viagra, cuja patente acaba de ser quebrada. Ambas as atitudes denotam que eles estão interessados no prazer sexual da parceira, ainda que seja apenas para confirmar a própria virilidade. Se logram ou não êxito nessa busca, é outra história.

Em se tratando de gozo feminino, nada é óbvio. Pesquisa realizada em 2003 pelo Projeto Sexualidade (Prosex) dá conta que 26% das brasileiras têm a chamada disfunção orgástica, ou seja, dificuldade de alcançar o orgasmo ou sua total ausência. Isso talvez ajude a explicar a insegurança dos varões. Entre quatro paredes, o medo de não satisfazer a companheira (55,9%) supera o de contrair doenças sexualmente transmissíveis (44%). “Existe um mito em torno do orgasmo. Como se a mulher que não o sentisse tivesse um problema. A cama se torna a única referência para um bom relacionamento quando, na verdade, não é”, enfatiza Gerusa Figueiredo Neto, sexóloga pelo Instituto de Ciências Sexológicas de Madrid.

O orgasmo pode até não ser o objetivo último do sexo, mas que ele é altamente desejável, ah, isso é. Discretas, elas evitam falar sobre o assunto. A Revista, porém, ouviu relatos inspiradores de quem procura o instante máximo da excitação de que o corpo é capaz — sozinhas ou acompanhadas. São histórias de moças que enveredaram pelo sexo virtual, descobriram os estímulos tântricos, adotaram brinquedos eróticos e até aderiram à troca de casais. Com uma pitada de bom humor, entramos no universo das mulheres que fazem da cama (ou da pia, do chão, do elevador, da boate) seu parque de diversões particular.

Voo solo

A vida a dois esfriou. Às mulheres de gerações anteriores, isso poderia significar o ocaso definitivo da sexualidade. Hoje, estar ou não solteira, manter ou não relações, tem pouco ou nada a ver com sentir prazer ou obter orgasmos. Elas agora investem sem compromisso na libido e exploram o próprio corpo sozinhas. Paradoxalmente, a masturbação ainda é um assunto tabu.

Segundo a psiquiatra Carmita Abdo, uma das fundadoras do Projeto Sexualidade, do Instituto de Psiquiatria da Universidade de São Paulo, um terço das brasileiras nunca se tocou e dois terços acham a prática desconfortável. “É importante que a mulher busque se conhecer. Assim podem comunicar para o parceiro sobre suas preferências. Mas a indicação é que ela respeite seu próprio ritmo. Não dá para exigir algo que não condiz com a fase de sua vida”, aponta Carmita , coordenadora do Estudo da Vida Sexual do Brasileiro, que entrevistou 7.100 pessoas em 2003.

Para o psiquiatra Alexandre Saadeh, a busca pelo orgasmo está intimamente ligada à prática da masturbação. “Em geral, as mulheres já começaram a perceber que é interessante se permitir e se experimentar porque assim entendem como gostam de ser tocadas — e isso facilita muito a relação”, afirma. Contudo, o constrangimento com relação ao prazer solitário continua arraigado culturalmente. “Muitas temem ser taxadas de promíscuas. Pelas características da masturbação, do órgão sexual feminino, e por conta da repressão desde pequena que muitas delas sofrem”, constata.

http://www.correiobraziliense.com.br/page/286/capa_revista_do_correio.shtml

Simone Rosa

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