Judith Butler: As Questões de Gênero e Os Corpos que Importam

Judith Butler

Filósofa feminista, teórica queer, militante da causa transexual e intersexo, pesquisadora da filosofia judaica, politicamente engajada na questão da violência nos Estados Unidos, professora do Departamento de Retórica e Literatura Comparada da Universidade da Califórnia, em Berkeley, Judith Butler é referência imprescindível nos estudos da Teoria Queer desde que, em 1990, publicou o seu Problemas de Gênero (Gender Trouble, Editora Civilização Brasileira), onde busca uma desconstrução das configurações de identidade de gênero e propõe um pensamento abrangente, que ao deslocar-se da análise recorrente da questão relacionada a homem e mulher, inclui na questão os indivíduos inadequados ao ideal normativo. O objetivo de Butler é indicar uma incapacidade de coerência da identidade de gênero, que, se pensada em uma estrutura binária e linear, pressupõe uma necessidade de ajuste à norma por parte daqueles que não se enquadram em tais estruturas. Butler aponta que essa configuração do modelo comportamental exigido pela sociedade deixa de lado particularidades anatômicas ou psicológicas que escapam à classificação de normalidade, e exclui a sexualidade como uma multiplicidade de combinações que não surgem a partir da imposição psicossocial.

Segundo Patricia Porchat, em seu artigo sobre Judith Butler intitulado Respirar, Desejar, Amar e Viver, essa imposição psicossocial consiste na idéia de que gênero é um ato intencional e performativo; são palavras ou gestos que, ao serem expressos, criam uma realidade. Esses atos, repetidos de uma forma estilizada, produzem um efeito ontológico, levam a crer na existência de seres homens e seres mulheres. (…) Os gêneros são performances sociais.

Com a idéia da performatividade, Judith Butler redireciona os indivíduos excluídos pela norma ao mesmo patamar dos gêneros dominantes, ou seja, o ideal normativo tem caráter ilusório e não pode ser determinante na classificação de identidades sexuais enquanto normais ou patológicas. O corpo não acata completamente as normas que impõem sua materialização. Nesse sentido, o corpo resiste tanto às intenções do sujeito quanto às normas sociais, aponta Porchat.

O que Judith Butler busca, através de um incansável estudo que contribui para dar visibilidade à importância das discussões de sexo, gênero e sexualidade, é antes de tudo chamar a atenção para a necessidade de legitimizar existências que o ideal normativo relegou ao status de abjetas. Daí o título de seu livro posterior à Gender Trouble, Bodies that Matter (1993), ser tão revelador enquanto ambíguo: corpos que importam, corpos que se materializam e obtêm uma legitimidade social. Os corpos considerados abjetos pela norma estão desconstituídos de sua humanidade, e por isso, são relegados à invisibilidade. Em entrevista concedida ao Departamento de Estudos da Mulher, do Instituto de Artes da Universidade de Utrecht, na Holanda, publicada na Revista Estudos Feministas (vol.10 no.1 Florianópolis Jan. 2002) Judith Butler enfatiza: o abjeto para mim não se restringe de modo algum a sexo e heteronormatividade. Relaciona-se a todo tipo de corpos cujas vidas não são consideradas ‘vidas’ e cuja materialidade é entendida como ”não importante’.

Nesse sentido, o engajamento da autora de Gender Trouble e Bodies that Matter se coloca além um enquadramento filosófico feminista e se concentra em questões éticas, a fim de desvincular do caráter patológico aqueles que apresentam complexidades de gênero e sexualidade não absorvidas pelo ideal normativo, e através da desmistificação das configurações sociais excludentes, devolver-lhes o direito básico de uma existência legítima.

Léo Tavares

Artigo de Patrícia Porchat: Respirar, Desejar, Amar e Viver: http://revistacult.uol.com.br/home/2010/03/respirar-desejar-amar-e-viver/

Entrevista com Judith Butler na Revista Estudos Feministas: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-026X2002000100009

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3 respostas para Judith Butler: As Questões de Gênero e Os Corpos que Importam

  1. Pingback: Muriel/Hugo – Personagens Trans(viados) | Cultura Visual Queer

  2. Mandy disse:

    Gostei muito e me ajudou bastante, Obrigada *-*

  3. Yuri Azevedo disse:

    Gente, que maravilha! Ótimo! :)

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