Hedwig and The Angry Inch– de John Cameron Mitchell, EUA, 2001

 

Vencedor do prêmio Teddy Bear em 2001, destinado a filmes com temática gay, Hedwig and The Angry Inch nasceu de uma parceria entre o ator e roteirista John Cameron Mitchell e o músico Stephen Trask. O projeto, que inicialmente consistia em apresentações performáticas em bares de drag queens, se tornou um musical off-broadway de muito sucesso nos teatros alternativos, chamando a atenção de produtores de filmes  independentes, que decidiram levar a história às telas e convidaram John Cameron Mitchell para adaptar o roteiro para o cinema. Ele também ficou a cargo da direção, e, assim como no teatro, o próprio Mitchell interpreta o protagonista do musical e assume o vocal em todas as canções assinadas por Trask.

Hedwig conta a história de Hansel, um jovem homossexual vivendo sob a égide da repressão na Alemanha Oriental. O garoto cresce escutando músicas americanas e sonhando em um dia viver nos Estados Unidos. Ele tem a oportunidade de deixar a Alemanha quando conhece um soldado americano, mas para que isso se concretize, Hansel precisa passar por uma cirurgia de mudança de sexo e se tornar uma mulher, a fim de casar com o soldado e ir viver nos Estados Unidos. Ele então resolve se submeter à operação, que é mal-sucedida e lhe deixa com um pedaço do pênis –a polegada irada do título. Nos Estados Unidos, ele é abandonado pelo marido. É aí que, diante de sua incompletude espiritual e física, Hansel inicia um processo de libertação de seu passado e composição de uma identidade almejada. É o nascimento de Hedwig, uma cantora de rock que não é propriamente uma mulher, mas também não é mais homem, tem desejos sexuais pelo sexo masculino e se mostra para a sociedade como uma drag queen. Essa multiplicidade é o que caracteriza Hedwig e é o que dá o tom discursivo do filme, que transpõe o gênero musical-entretenimento para tratar sobre questões de sexo, gênero e sexualidade e de como esta diversidade é encarada pela sociedade.

Hedwig se confronta com os próprios processos de aceitação interior, à medida em que enfrenta corajosa e orgulhosamente o preconceito que se coloca diante dele, e John Cameron Mitchell interpreta Hedwig –e todas as canções do filme- com a paixão necessária para que seu trabalho simbolize uma bandeira –não panfletária, mas imprescindível- da aceitação e da dignidade. A partir do momento em que decide atravessar a fronteira da invisibilidade para iniciar uma luta pela conquista de seu espaço, Hedwig nos diz que é preciso assegurar com garra o nosso lugar no mundo, ainda que esse mesmo mundo não esteja preparado para nos receber de braços abertos.

Léo Tavares

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