Seraphito Seraphita

– Por Daiara Figueroa

Honoré de Balzac, escritor francês do século XIX, que centrou seu romance Seraphîta (1833) em um personagem andrógino, vindo diretamente das teorias de Swedenborg[1]. Seraphîtus-Seraphîta é uma criatura misteriosa e totalmente entregue à religiosidade, amado em tanto que homem por sua amiga Minna e entanto mulher por seu amigo Wilfred. Seraphîtus faz prova de uma erudição e capacidades intelectuais acima da média e de uma doçura cativante; teria nascido de uma misteriosa união espiritual e física de dois opostos primordiais: um homem másculo, detentor de grande sabedoria e conhecimento científico, e de uma mulher extremamente feminina delicada e bela cujo grande coração é capaz de carinho e amor em todos os sentidos. Sempre apresentado como tendo um caráter angelical, Seraphîtus não é apresentado como um anjo que desceu à terra, mas um ser humano perfeito e iluminado prestes a abandonar nossa esfera de realidade despindo-se de sua carne e a tornar-se um anjo ao vestir-se de luz divina, ou seja se metamorfisar numa criatura superior e mais próxima de Deus: um Serafim, um anjo.

Balzac, porém, não faz nenhuma alusão direta ao hermafroditismo de Seraphîtus, explicitando que o personagem nunca teria sido visto nu por ninguém, nem mesmo quando criança; No entanto, em sua explicação a respeito da natureza dos anjos e de seu matrimônio as coisas ficam subentendidas: a união de dois seres iluminados para a ascensão divina aconteceria da seguinte maneira, sendo o homem um espírito de sabedoria e a mulher um espírito de amor:

“Desta união que não produz filhos, o homem deu o ENTENDIMENTO, a mulher a VONTADE: eles se tornam um único ser, UMA SÓ carne aqui embaixo; depois eles vão aos céus após ter vestido a forma celeste. Aqui embaixo no estado natural, a inclinação mútua dos dois sexos para as voluptuosidades é um EFEITO que causa nojo e fadiga”

(Balzac, 1833. p.121)[2]

Seraphîtus acaba causando a convergência de seus dois amigos: ambos apaixonados por ele, Minna e Wilfred são atraídos não apenas pela admiração espiritual e mental, mas igualmente pelo desejo carnal. Desejo esse que Seraphîtus sempre esquiva e recusa por ser um ser sem vontades mundanas e com ambições apenas espirituais, cujo único amor almejado é o de Deus; rejeitados por esta criatura misteriosa, Minna e Wilfred acabam ficando juntos. Balzac brinca com a androginia de seu personagem principal: Minna só consegue percebê-lo como homem e Wilfred como mulher, já que o Serafim se apresenta da maneira mais desejada e atraente para aquele que o contempla, alternando não apenas a sexualidade de sua aparência, mas seu tom de voz e gestualidade: Minna o admira pela sua autoconfiante imponência e Wilfred pela sua delicadeza e fragilidade. A leitura se alterna entre masculino e feminino neste romance que usa o campo como cenário: um castelo norueguês próximo do Fjord Stromfjord, onde a maioria dos diálogos ocorre no alto de uma geleira nórdica e muito próxima do abismo, colocando os personagens praticamente no topo do mundo, distantes da vida cosmopolita e mais próximos da ascensão ao o céu, o paraíso divino.


[1]Emanuel Svedberg dito Emanuel Swedenborg: cientista, teólogo e filósofo sueco do séc. XVIII. Declarou ter tido visões e sonhos místicos nos quais discutiu com anjos e espíritos a respeito da natureza do além, também teria conversado com Deus e Jesus Cristo, visitando paraíso e inferno. Para Swedenborg, os anjos seriam a mistura de uma alma feminina e uma alma masculina, gerando equilíbrio entre amor e razão para o alcance do divino.

[2] “Dans cette union, qui ne produit point d’enfants, l’homme a donné L’ENTENDEMENT, la femme a donné la VOLONTE : ils deviennent un seul être, UNE SEULE chair ici-bas ; puis ils vont aux cieux après avoir revêtu la forme céleste. Ici-bas, dans l’état naturel, le penchant mutuel des deux sexes vers les voluptés est un EFFET qui entraîne et fatigue et dégoût;” (tradução desta autora).

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