MORTE EM VENEZA

Outro texto que trata das relações homo eróticas com o andrógino é Morte em Veneza, onde Thomas Mann apresenta uma escrita complexa e profunda, onde quase cada parágrafo possibilita leituras ambíguas. Em contraponto o enredo da novela é praticamente inexistente: Gustav Aschenbach  um homem de meia-idade viaja até Veneza  e apaixona-se platonicamente por Tadzio um jovem rapaz polaco extremamente atraente, o senhor morre sem sequer ter trocado uma palavra com ele. Morte em Veneza foi transposto para o cinema por Luchino Visconti, numa produção franco-italiana de 1971 .

Assim como o texto que o descreve, Tadzio é um adolescente de beleza ambígua: seus traços suaves e femininos só se tornam mais excitantes com sua postura e comportamento dignos de um garoto de sua idade. A verdadeira atração de Aschenbach mostra ser pela beleza e perfeição física do menino: isto fica evidente para o leitor, dentre outros motivos, na medida em que Tadzio é apresentado como “o belo”. O personagem principal sente o prazer, o terror e o pânico de se entregar aos encantos andróginos do garoto. Se a uma primeira leitura, a homossexualidade se torna evidente em Morte em Veneza, conforme se debruça na narrativa, essa questão se mostra secundária à análise da obra: Não foi esta a preocupação central do autor, visto que nem sequer houve contato físico entre as personagens, mas justamente a tensão criada pelo encanto desta figura idolatrada capaz dos piores tormentos.

Rosenfeld (1994, p. 183) declara que “Aschenbach vê no jovem Tadzio o reflexo temporal da beleza eterna, do ideal sempre perseguido e de tal modo irresistível na sua encarnação que se acha moralmente desarmado diante da imagem perfeita”. Logo, a imagem de Tadzio seria uma captura da beleza, que a arte se encarrega de eternizar. Segundo o mesmo autor, o amor de Aschenbach por Tadzio vai se dá como uma paixão narcisista, em que o escritor ama na beleza do menino a sua própria imagem, sua própria meta espiritual, seu sonho da beleza. Sonho este que, ironicamente, irá lançá-lo às profundezas da dissolução.

– por Daiara Figueroa

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2 respostas para MORTE EM VENEZA

  1. Léo disse:

    Interessante você ter observado ao final do seu texto que o foco da obra está nesta busca obsessiva de Aschenbach pela beleza idealizada em sua manifestação material, representada pela figura de Tadzio, e pelas implicações filosóficas desta busca, muito mais do que na sexualidade do protagonista, cujos conflitos centrais estão muito mais relacionados à sua identidade como esteta e espírito atormentado por ver em si mesmo um reflexo da perfeição, do que à sua identidade sexual. Interessante também observar que o próprio Visconti, sendo um homossexual assumido, preferiu mostrar essas implicações filosóficas, vide a cena em que, na praia, sob o sol, privado da visão de Tadzio e já sem esperanças de encontrar em si mesmo reflexos de uma almejada perfeição, a maquiagem de Aschenbach escorre, revelando sua própria decrepitude física e espiritual. Vale lembrar alguns fatores de identificação profunda entre o diretor e o personagem Aschenbach: Visconti era, ele mesmo, um esteta, e ainda que se tivesse filiado ao Partido Comunista nos anos 30, vinha de uma família da aristocracia italiana, era amante das artes e nunca abdicou de luxos e de seu título de nobreza, o que levou os intelectuais da época a apelidá-lo de “Conde Vermelho”; era remanescente de uma época aristocrática que não existia mais na Itália, época cuja decadência ele mesmo retratou com nostalgia em seu “O Leopardo”, o que o aproxima essencialmente do personagem de Mann.
    Do próprio Visconti, existe um filme mais aprofundado no tema da sexualidade, ainda que antes aborde a ambigüidade das relações entre os personagens do que esmiúce o tema de forma, digamos, mais explícita, e tem no Brasil o título de “Violência e Paixão” (Gruppo di Famiglia In Un Interno). Fica como sugestão.
    PS: Bom trabalho!

  2. deixei um comentário dias atrás neste post, mas ele sumiu… =/

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