CONSIDERAÇÕES SOBRE GÊNEROS

Este é um texto sobre sexualidade na escola, escrito por Luiza Mader e Juliana Spinola, no semestre passado para a disciplina Psicologia da Educação. Aproveitamos para compartilhar:

Com algumas adaptações sugeridas por Tauana

Algumas considerações sobre gêneros

No âmbito social, os gêneros são construídos e modificados de acordo com a sociedade no qual são inseridos.  O gênero é constituinte da identidade dos sujeitos, e manifestado através de discursos, símbolos, representações e práticas. Nessa instância, os sujeitos vão se construindo como masculinos ou femininos ou outras possibilidade não planejadas.  A dicotomia entre os sexos foi sendo construída através do exercício do poder, que fortaleceu esses pólos. A heteronormatividade se baseia nessa lógica binária que funciona por meio de antagonismos (homo/hetero, feminino/masculino, mulher/homem) da mesma forma que os outros tipos de preconceitos como o racismo (negro/branco), o xenofobismo (natural/estrangeiro), de classe (pobre/rico) e, todos eles, na classificação hierárquica binária (inferior/superior).

Nessa classificação (inferior/superior), encontra-se a superioridade do homem em relação à mulher. Ao homem, é destinado o papel dominante na estrutura social. A ele são destinados os negócios, a capacidade de raciocínio lógico, a característica do brilhantismo, da liderança e do sucesso e o domínio do espaço público. Ele deve ser competitivo e vencedor, forte e determinado. À mulher, destina-se o ambiente doméstico, ou seja, o espaço privado, o cuidado com os filhos, com o marido e com a casa (isso porque dentro da lógica heteronormativa, a principal função da mulher é casar e ter filhos), as habilidades manuais, a fragilidade, a sensibilidade e a dependência. Com isso, quem decide viver sozinho ou não quer ter filhos, é logo discriminado, caracterizado por ter algum problema de relacionamento, afetivo, psicológico, entre outros termos. Isso, porque são características contrárias ao padrão heteronormativo e associadas aos homossexuais.

No mesmo mote, os homossexuais são retratados constantemente de forma estereotipada ou caricata tanto no entendimento comum quanto na sua representação. Essa estereotipação também dá margem às piadas que são consideradas ofensas injuriosas. Na mídia, é onde mais vemos esse tipo de representação. A mídia é composta predominantemente de imagens e elas têm muita força na formação da personalidade das pessoas, principalmente das crianças. A mídia é um recurso político de massificação e padronização da sociedade. Ela insere valores e padrões culturais por motivos políticos e/ou econômicos. São construídos estereótipos que são disseminados e vendidos. Contudo, é uma via de mão dupla, pois a mídia se utiliza de recursos, manifestações, idéias e valores que estão na sociedade. Se, por um lado, a mídia impõe certos valores, as pessoas também contribuem para o que a mídia escolherá divulgar através dos vários meios de comunicação.

Os transgêneros são os mais discriminados dentro das formas de vivenciar a sexualidade. Sinteticamente, o problema se encontra no não reconhecimento da variação das identidades de gênero. Estas são caracterizadas pelas múltiplas formas de tornar-se homem ou mulher, podendo não ser nem homem nem mulher ou os dois ao mesmo tempo. Acreditamos que o transgênero vê, dentro da lógica heteronormativa, uma incompatibilidade entre o seu sexo biológico e sua identidade de gênero.

Os transgêneros não necessariamente querem mudar de sexo por meio de intervenção cirúrgica. A crença de que todos os transgêneros querem se submeter à cirurgia de mudança de sexo caracteriza o pensamento heteronormativo e binário. Existe uma infinidade de modos de vivenciar a sexualidade e não é possível listar todas.

Se dissermos que transexuais, no caso de pessoas do sexo masculino que se sentem mulheres, são cópias de mulheres, o que as caracteriza como tendo uma sexualidade incompleta, sem um lugar para elas, cairemos na oposição binária homo/hetero ou mulher/homem. Eles não são cópias de mulheres, são outra coisa, estão no espaço trans, não se encaixam na cadeia heteronormativa e, por isso, não podem ser classificados de acordo com ela. Se o sexo não está ligado a gênero nem à sexualidade, não é possível determinar uma sexualidade autêntica.

Gênero e sexualidade na escola

A escola também é protagonista na promoção dessas desigualdades e conflitos de gêneros (Louro, 2001). A escola promove a delimitação de espaços e a segregação de pessoas. Através da utilização de símbolos e códigos, afirma o que cada pessoa deve ou não fazer, definindo o lugar do grande e pequeno. Não hesita em estabelecer o que podem ver, ouvir e sentir nas formas de constituição do sujeito, implicadas na concepção e organização do cotidiano escolar. Por meio das instituições, essas concepções são apreendidas e interiorizadas, tornando-se naturais. Desde cedo, as crianças aprendem, são treinadas para representarem seus papéis de gênero esperados pela sociedade heteronormativa, patriarcal e autoritária. As divisões de raça, etnia, gênero e sexualidade estão implicadas nestas construções e é somente na história dessas divisões onde se pode encontrar uma explicação para a lógica que as rege. Gestos, movimentos, sentidos são reproduzidos no ambiente escolar e incorporados pelas crianças. A escola é uma instituição pertencente à cultura e, na maioria das vezes, reproduz e produz valores arcaicos de discriminação e preconceito, não aceitando comportamentos tidos como desviantes e regulando corpos de acordo com seus “devidos” gêneros. Em muitos contextos, a escola não atua com a real promoção do saber que deve ser de forma ampla, incluindo a construção de novas práticas sociais. Ao invés disso, ela vigia e controla a construção da personalidade dos alunos e alunas para que, no futuro, desempenhem os papéis esperados. Os livros didáticos retratam essas famílias ideais, predominantemente, embora haja uma incorporação tímida de outras formas de constituição familiar como mães solteiras ou chefes de família, pais solteiros, divorciados, que moram juntos, mas não passaram pelo casamento na igreja ou no civil, famílias com filhos adotivos etc. Contudo, ainda não são retratadas de forma clara as famílias constituídas por homossexuais. Uma criança que tem pais homossexuais ou pai ou mãe homossexual, não consegue se ver nesses livros.

Geralmente, os professores não admitem a existência da sexualidade nas crianças, acreditando que isso só deve ser tratado na puberdade. Mesmo tratando-se de sexualidade nesta fase, não existe uma abordagem em relação à afetividade ligada à sexualidade. Os pontos abordados pela escola se restringem à prevenção da gravidez precoce, das DSTs/Aids, e à preocupação com a saúde sexual. Os métodos de prevenção desses problemas são voltados exclusivamente para a prática heterossexual, não havendo orientação aos homossexuais. Outra questão problemática é que esse tema é tratado em termos biológicos, ou seja, é o professor de biologia quem irá tratar o assunto.

A fabricação de diferenças – sexismo e homofobia na prática educativa são contínua e extremamente sutis. Primeiramente, deve-se desconfiar do que é nomeado como natural e problematizar as teorias que orientam o trabalho do professor, atentando para a linguagem a cerca do sexismo, racismo e o etnocentrismo que freqüentemente carrega e institui. É urgente que o corpo docente saiba lidar com diferentes raças, gêneros, sexualidade e classes, pondo em questão as relações de poder que são compartilhadas e exercidas. Os ditos “diferentes” da escola apreenderão, então, a silenciar e a dissimular, pois seus desejos não são “normais”. Exatamente por não serem naturais é que todos sofrem, mesmo os que se acreditam dentro da norma. Porque não é fácil corresponder a esse padrão, estar o tempo todo se esforçando para isso. O não cumprimento desse padrão é visto como fracasso. Sem apoio para ressignificar a sexualidade, o/a criança ou adolescente dificilmente consegue fazer isso sozinho.

História da Sexualidade, por Focault

Através do conceito de hegemonia, as relações de poder constroem seus mecanismos de exclusão, preconceitos e práticas discriminatórias. Assim, os sujeitos que possuem uma identidade sexual não hegemônica, ocupariam uma posição social marginal em relação à hetenormatividade das sociedades contemporâneas. Nessas reflexões sobre as formas de poder, são fundamentais as formulações foucaultinas. Nas últimas décadas do século XX, inúmeras mudanças desestabilizaram o cenário de suposta tranqüilidade na compreensão da relação entre sujeito, sexualidade e gênero, como, por exemplo, a entrada da mulher no mercado de trabalho, o movimento feminista, os movimentos de gays e lésbicas, novas estruturas familiares, etc. Neste contexto, um dos autores que mais contribuíram para a temática relacionada à sexualidade foi o filósofo francês Michel Foucault. A obra “História da Sexualidade 1 – A vontade de Saber” considera que a vontade de saber sobre a sexualidade, proveniente do período capitalista, não inaugura um momento de liberação sexual, mas promove estratégias de controle do sujeito e da população, sendo essa, uma novidade da sociedade moderna.

Referências

FOUCAULT, Michel,. História da sexualidade 1: a vontade de saber. 17. ed. Rio de Janeiro: Graal, 2006. 176 p.

LIONÇO, Tatiana. Homofobia & Educação: um desafio ao silêncio/Tatiana Lionço; Debora Diniz (Organizadoras). Brasília: LetrasLivres: EdUnB, 2009. 196 p.

LOURO, Guacira Lopes. Gênero, sexualidade e educação: uma perspectiva pós-estruturalista. 10. ed. Petrópolis: Vozes, 2008. 179 p.

MADUREIRA, Ana Flávia do Amaral. Gênero, sexualidade e diversidade na escola: a construção de uma cultura democrática. 2007. 428 p. Tese (doutorado) – Universidade de Brasília, Instituto de Psicologia, 2007.

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